CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

ANÁLISE


 


Tão abstracta é a ideia do teu ser


Que me vem de te olhar, que, ao entreter


Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,


E nada fica em meu olhar, e dista


O teu corpo do meu ver tão longemente,


E a ideia do teu ser fica tão rente


Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me


Sabendo que tu és, que, só por ter-me


Consciente de ti, nem a mim sinto.


E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto


A ilusão da sensação, e sonho,


Não te vendo, nem vendo, nem sabendo


Que te vejo, ou sequer que sou, risonho


Do interior crepúsculo tristonho


Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


            Do sonho e pouco da vida.


12-1911


 


In “Obra Poética e em Prosa” - Vol. I - Fernando Pessoa


(Introd., org., biobibliografia e notas de António Quadros


e Dalila Pereira da Costa)


Lello - 1986


 


Fernando Pessoa


(1888 - 1935)

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