CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

O GRANDE ESPECTRO, QUE FAZ SOMBRA E MEDO


 


O grande espectro, que faz sombra e medo,


Ergueu-se ao pé de mim, e eu temi-o;


Não porém com pavor, que nasce cedo,


Mas com um negro medo, oco e tardio.


 


Trajava o corpo seu vácuo e segredo


E o espaço irreal, onde formava frio,


Era como os desertos do degredo,


Um não-ser mais vazio que o vazio.


 


Não mais o vi, mas sinto a cada hora


Ao pé da alma, que teme e já não chora,


A álgida consequência e o vulto nada,


 


E cada passo em minha senda incerta


Um eco o acompanha, que deserta


Da atenção fria, inutilmente dada.


 


9-2-1930


 


In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição


Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith


Assírio & Alvim


 


Fernando Pessoa


(1888-1935)

0