CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA


 


Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,


 


Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.


 


Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões p'ra cantar que a vida.


 


Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração


A tua incerta voz ondeando!


 


Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso! Ó céu!

Ó campo! Ó canção! A ciência


 


Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me passai!


 


 


05/08/1921


 


In "Cancioneiro – Fernando Pessoa – Antologia Poética"


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935


 


 

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