CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

EROS E PSIQUE


 


Conta a lenda que dormia 


Uma Princesa encantada 


A quem só despertaria 


Um Infante, que viria 


De além do muro da estrada.  


 


Ele tinha que, tentado, 


Vencer o mal e o bem, 


Antes que, já libertado, 


Deixasse o caminho errado 


Por o que à Princesa vem.  


 


A Princesa Adormecida, 


Se espera, dormindo espera, 


Sonha em morte a sua vida, 


E orna-lhe a fronte esquecida, 


Verde, uma grinalda de hera.  


 


Longe o Infante, esforçado, 


Sem saber que intuito tem, 


Rompe o caminho fadado, 


Ele dela é ignorado, 


Ela para ele é ninguém.  


 


Mas cada um cumpre o Destino – 


Ela dormindo encantada, 


Ele buscando-a sem tino 


Pelo processo divino 


Que faz existir a estrada.  


 


E, se bem que seja obscuro 


Tudo pela estrada fora, 


E falso, ele vem seguro, 


E vencendo estrada e muro, 


Chega onde em sono ela mora,  


 


E, inda tonto do que houvera, 


À cabeça, em maresia, 


Ergue a mão, e encontra hera, 


E vê que ele mesmo era 


A Princesa que dormia.  


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


(1888-1935)

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