CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

NÃO TENHO HOJE MEMÓRIA, NESTE SONHO


 


Não tenho hoje memória, neste sonho


Que sou de mim, de quanto quis ser eu.


Nada de nada surge do medonho


Abismo de quem sou em Deus, do meu


Ser anterior a mim, a me dizer


Quem sou, esse que fui quando no céu,


Ou o que chamam céu, pude querer.


 


Sou entre mim e mim o intervalo —


Eu, o que uso esta forma definida —


Em outro mundo ulterior resvalo.


 


Em outro mundo, onde a vontade é lei,


Livremente escolhi aquela vida


Com que primeiro neste mundo entrei.


Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei


Com o preço das vidas subsequentes


De que ela é a causa, o deus; e esses entes,


Por ser quem fui, serão o que serei.


 


[1932?]


 


In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição Abril.2014


Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith


Assírio & Alvim


Pág. 96


 


Fernando Pessoa


(1888-1935)

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