CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

ENTRE O BATER RASGADO DOS PENDÕES

 

Entre o bater rasgado dos pendões

E o cessar dos clarins na tarde alheia,

A derrota ficou: como uma cheia

Do mal cobriu os vagos batalhões.

 

Foi em vão que o Rei louco os seus varões

Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia.

Água que mão infiel verteu na areia —

Tudo morreu, sem rastro e sem razões.

 

A noite cobre o campo, que o Destino

Com a morte tornou abandonado.

Cessou, com cessar tudo, o desatino.

 

Só no luar que nasce os pendões rotos

’Strelam no absurdo campo desolado

Uma derrota heráldica de ignotos.

 

In “Fernando Pessoa - Cancioneiro”

Biblioteca Essencial da Literatura Portuguesa

Atlântico Press

 

Fernando Pessoa 

(1888-1935)
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