CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: "Quem é que ousou entrar

nas minhas cavernas que não desvendo,

meus tectos negros do fim do Mundo?"

E o homem do leme disse, tremendo:

"El-Rei D. João Segundo!"


 


"De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?"

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

"Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?"

E o homem do leme tremeu, e disse:

"El-Rei D. João Segundo!"


 


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes;

"Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!"


 


 


09-09-1918


 


In "Mensagem"


Colecção Autores Portugueses de Ontem 2 – Junho/90


Estante Editora


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935


 


 

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