CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

O MENINO DA SUA MÃE 
 


No plaino abandonado 
Que a morta brisa aquece,  
De balas traspassado 
– Duas, de lado a lado –,  
Jaz morto, e arrefece.  


 


Raia-lhe a farda o sangue.  
De braços estendidos,  
Alvo, louro, exangue,  
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos.  


 


Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera:  
"O menino da sua mãe."  


 


Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve.  
Dera-lhe a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira.  
Ele é que já não serve.  


 


De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo,  
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo. 


 


Lá longe, em casa, há a prece:  
"Que volte cedo, e bem!" 
(Malhas que o Império tece!)  
Jaz morto, e apodrece,  
O menino da sua mãe.    


 


 


Cancioneiro


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição


Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935


 


 

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