CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Vieira

 

NOCTURNO

 

As árvores dançam

No espaço nevoento.

São cordas vibrando

Nos dedos do vento.

 

Desfolham-se os ramos,

Destelham-se as casas.

E sobem às nuvens

Raízes com asas.

 

À fúria do vento,

Vazios, cansados,

Os homens ent regam

Os sonhos frustrados.

 

Destroços sem vida

De vidas incalmas,

Evolam-se os corpos:

Só ficam as almas.

 

E as almas esfriam

Na noite assombrada.

Sedentas de tudo

Já não pedem nada:

 

Nem mal que lhes doa,

Nem bem que as conforte:

São cordas vibrando

Nos dedos da morte

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 28

 

Fernando Vieira

(1923-1994)

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