NOCTURNO
As árvores dançam
No espaço nevoento.
São cordas vibrando
Nos dedos do vento.
Desfolham-se os ramos,
Destelham-se as casas.
E sobem às nuvens
Raízes com asas.
À fúria do vento,
Vazios, cansados,
Os homens ent regam
Os sonhos frustrados.
Destroços sem vida
De vidas incalmas,
Evolam-se os corpos:
Só ficam as almas.
E as almas esfriam
Na noite assombrada.
Sedentas de tudo
Já não pedem nada:
Nem mal que lhes doa,
Nem bem que as conforte:
São cordas vibrando
Nos dedos da morte
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Outono de 1951
Pág. 28
Fernando Vieira
(1923-1994)