CÁ TE ESPERO...

Recordando... Firmino Mendes

A CASA, AO LADO DO RIO


 


São muitos os caminhos que levam ao rio,


à relação maior com o movimento do mundo.


Abrem-se algumas vozes de demoradas cores:


amoras, cerejas, romãs, cachos de glicínias.


 


A casa é pequena - tão só, entre as árvores e


tocada pelo vento que chega do lado das maçãs,


depois de atravessar o pequeno souto que guarda


a encosta. Mas a casa pequena recebe a luz do rio


 


e da corrente sem limite que respira do incerto.


Tudo respira do incerto - gozo puro de correr


aberto à matéria da matéria, ao sopro sem nascente


que atravessa o próprio ar e vive de poder viver.


 


Como as crianças trazem nos olhos o desequilíbrio


da inocência, assim se vestem os cantos da casa


onde tudo é imperfeito: - ao lado do rio, quatro ângulos


de musgo esperam a dança das grandes correntes.


 


Chegam as aves, no fim da tarde, para descansar do dia.


As cidades estão longe e a tristeza do mundo transforma-se


nessa aceitação do vento e do musgo, da casa e da corrente.


Tudo flui para o lugar de onde nascem todos os silêncios.


 


In “A terra e os Dias”


Pedra Formosa Edições


 


Firmino Mendes


(N. 1949)

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