CÁ TE ESPERO...

Recordando... Firmino Mendes

ESPINOSA


 


Nenhum dia é igual a outro e hoje, aqui sentado


neste banco de um jardim de Beja, deu-me para


pensar em ti, Baruch hebraico, Bento português.


O teu pai Miguel andou por aqui há quase quatro


centenas de anos. Parece que nasceu bem perto,


na Vidigueira das vinhas e do sol.


 


E tu nasceste em Amsterdão de pais fugidos à Inquisição.


Aprendeste a falar e a escrever português, a língua


de outros documentos da tua comunidade.


Quiseste saber mais do que o que te ensinavam e


foste excomungado, condenado ao banimento. Leio


agora o documento que te expunha à sombra dos homens,


que amaldiçoava as tuas horas de todos os dias,


o teu deitar e levantar, o teu entrar e o teu sair.


 


Mas os lugares por onde entravas ou saías


passaram a ser longe de Amsterdão - assim sorriste


à exclusão. Acusaram-te de liberdade, de pensamentos


perversos, de não acreditares que há só um povo escolhido


para a realização dos desígnios divinos.


 


Esta memória de ti leva-me às flores do campo:


- o teu túmulo merece uma papoila vermelha.


 


In "Um Segredo Guarda o Mundo"


Pedra Formosa Edições


 


Firmino Mendes


(N.1949)

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