CÁ TE ESPERO...

Recordando... Florbela Espanca

ÀS MÃES DE PORTUGAL


 


Ó mães doloridas, celestiais,


Misericordiosas,


Ó mães d’olhos benditos, liriais,


Ó mães piedosas


Calai as vossas mágoas, vossas dores!


Longe na crua guerra


Vossos filhos defendem, vencedores,


A nossa linda terra!


E se eles defendem a bandeira


Da terra que adorais,


Onde viram um dia a luz primeira


Ó mães, porque chorais?!


Uma lágrima triste, agora é


Cobardia, fraqueza!


Nos campos de batalha cai de pé


A alma portuguesa!


Pela terra de estrela e tomilhos,


De sol, e de luar;


Deixai ir combater os vossos filhos


Ao longe, heróis do mar!


Dum português bendito, sem igual


Eu sigo o mesmo trilho:


Por cada pedra deste Portugal


Eu arriscava um filho!


Por isso ó mãe doloridas, pelo leito


De morte, onde ajoelhais,


Esmagai vossa dor dentro do peito,


Ó mães não choreis mais!


A Pátria rouba os filhos, mas é mãe


A mãe de todos nós


Direito de a trair não tem ninguém


Ó mães nem sequer vós!


 


In “Trocando olhares” 1915-1917


Editora Martin Claret


 


Florbela Espanca


(1894-1930)

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