CÁ TE ESPERO...

Recordando... Francisco Bugalho

NOITE


 


Na noite negra, pérfida e calada,


Alguém passa a cantar à minha porta;


É uma voz estridente, desgarrada


Que assim se vai perdendo pela estrada


E em que há todo o pavor da noite morta.


 


Um arrepio dessa voz, que tem


Um medo heróico à própria solidão,


Comunica-se e vem


Fazer tremer involuntariamente,


Sobre o livro que leio, a minha mão.


Depois vai-se fundindo, em sons dispersos,


Na noite surda, pérfida e calada…


 


Foi do pavor de seguir só na estrada


Que nasceram também estes meus versos.


 


Canções de entre Céu e Terra (1940)


 


In “Obra Completa de Francisco Bugalho”


Organização de Luís Manuel Gaspar, João Filipe Bugalho, Maria Jorge, Luís Amaro e Diana Pimentel


Prefácio de Joana Varela


Editora LG


 


Francisco Bugalho


(1905-1949)

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