MONTADO VELHO
Meu triste montado velho,
Que paz tem quem te procura
E, em ti, vem achar o espelho
De uma vida sem doçura,
Mas livre de enganos vãos!…
Troncos rugosos, mas sãos,
Ásperos, sim, mas generosos;
Todos, na desgraça, irmãos,
Dos maus invernos ventosos,
E dos verões, sem pinga d’água.
Montado, que estranha mágoa
Te confrange e te redime!
A tua visão afago-a:
– és bom cenário pra um crime
e pra milagres também.
Montado, além, mais pra além,
Há céus azuis e há searas.
E brandas águas que têm
O brilho de pedras raras,
E não há solidão!…
Mas essa tua canção
–soluço d’alma que anseia –
também, a meu coração,
furtivamente se enleia.
E aqui me fico contigo.
Sem ternura, nem doçura:
Mas longe do mundo vão,
– meu velho montado amigo!…
O Espaço da Escrita
In “Obra Completa de Francisco Bugalho”
Organização de Luís Manuel Gaspar, João Filipe Bugalho,
Maria Jorge, Luís Amaro e Diana Pimentel
Prefácio de Joana Varela
Editora LG
Francisco Bugalho
(1905-1949)