CÁ TE ESPERO...

Recordando... Frei António das Chagas **

ROMANCE DE UMA FREIRA INDO ÀS CALDAS


 


Belisa, aquela beldade,


Cujas perfeições são tais,


Que a formosura e juízo


Vivem nela muito em paz;


Aquela Circe das almas,


Cuja voz sempre será


Encanto dos alvedrios


E o pasmo de Portugal;


Enferma, bem que sublime,


De uns achaques mostras dá,


Pois às deidades também


Os males se atrevem já.


Por se livrar das moléstias


Que a costumam magoar,


Se negou remédio às vidas,


Por remédio às Caldas vai.


Aquele sol escondido


Entre as nuvens de um saial,


Se ocaso faz de um convento,


Do campo eclíptica faz.


 


Mas, logo que os campos lustra,


Alento e desmaios dá


Ao dia para luzir,


Ao Sol para se eclipsar.


Aos prados, a quem o Estio


Despe a gala natural,


Quando os olhos podem ver,


Flores tornam a enfeitar.


Dando-lhe a música os bosques


Com citara de cristal,


Parece entre os ramos verdes


Cada rouxinol um Brás.


A viração que entre as folhas


Sempre buliçosa está,


Ou já murmure ou suspire,


Faz de cada assopro um ai.


Cuido que, por festejá-la


Com contentamento igual,


As fontes querem tanger


E as plantas querem bailar.


 


In “Fénix Renascida, V”


 


Frei António das Chagas **


(1631-1682)


 


** De seu nome António da Fonseca Soares  

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