CÁ TE ESPERO...

Recordando... Garcia Monteiro... Poeta do Séc. XIX

TALENTO BUROCRÁTICO

Palavra que o Eusébio é um rapaz astuto;

não é um imbecil, como há alguém que o pense.

Tinha um ar de quem anda em busca do Absoluto

e andava era a cismar na manga do amanuense.

Mal vagou o lugar foram dez cães a um osso,

e ele é que o abocou. Ora o comendador

(o tal que usa um grilhão pendente do pescoço)

influiu; mas o Eusébio inda operou melhor.

Foi aberto concurso, a bem da velha prática;

e o Eusébio (por si, sem ter quem o guiasse)

Fez no requerimento onze erros de gramática –

sete de ortografia e quatro de sintaxe.

Assim li num jornal. Os outros concorrentes,

sem um erro sequer, estavam muito abaixo:

o Eusébio apresentou asneiras convenientes

e foi ele, bem visto, o que alcançou despacho.

Ei-lo pois amanuense. Agora vai casar-se.

Comprou já chapéu alto e um valioso anel.

O pai gaba-o e diz: «É pena não formar-se!

Fazia-se dali um rico bacharel.»

É um moço prendado e é justo o seu alarde;

e então (e ele é que o diz) não tem sequer um vício...

Não há quem puxe um D como ele no Deus Guarde,

nem quem faça também mais erros num ofício.

Em contas, nem falar; é mesmo prodigioso;

não conheço ninguém mais forte na tabuada:

aquilo é segurinho, exacto, escrupuloso...

três vezes três são seis; dez, noves fora, nada.

Em suma, é um zeloso, um óptimo empregado.

Foi acertada a escolha; e só me desconsola

que ele não possa ser mais bem utilizado.

Que pena! Uma aptidão que dava um mestre-escola.


 


 


(Boston)


 


In "Rimas de Ironia Alegre"


Colecção Brevíssima – Maio de 1997


Liv. Civilização Editora e Contexto Editora


 


Garcia Monteiro


1859 – 1913


 


 


 

0