CÁ TE ESPERO...

Recordando... Glória de Sant'Anna

POEMA DOS JOVENS CONSCIENTES


 


Nós somos o que esperamos


todos ainda iguais aos mortos recentes


mas cobertos das cicatrizes


colhidas na seiva dos ramos molhados de sangue


na alta lua esgarçada das vigílias


no último eco mortífero e vibrante


 


Nossos cabelos rescendem à cinza que pulsa no vento


há um claro travo de sal em nossa boca


e trazemos nos olhos


a transparência das manhas tintas de medo


 


Sabemos


como vibra uma lança de dentro do tempo


a crescente medida dos gumes cintilantes


e o peso


das granadas soltas dos longos dedos tépidos


e desdobradas ao limite do inferno


 


Nós somos o que esperamos


todos ainda iguais aos mortos recentes


ultrapassar os trilhos calcinados


em filas densas ombro a ombro de mãos nuas


através do puro silêncio dos horizontes magoados


 


(sonhando trigo verde que toque a nossa face)


 


em busca da palavra


que purifique o sal dos nossos lábios


 


 


Cabo Delgado – Pemba – 1970


 


 


 


In “Revista Colóquio/Letras” – Poemas  


N.º 36  de Março.1977


Fundação Calouste Gulbenkian


 


 


Glória de Sant'Anna


1925 – 2009  


 


 


 

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