POEMA DOS JOVENS CONSCIENTES
Nós somos o que esperamos
todos ainda iguais aos mortos recentes
mas cobertos das cicatrizes
colhidas na seiva dos ramos molhados de sangue
na alta lua esgarçada das vigílias
no último eco mortífero e vibrante
Nossos cabelos rescendem à cinza que pulsa no vento
há um claro travo de sal em nossa boca
e trazemos nos olhos
a transparência das manhas tintas de medo
Sabemos
como vibra uma lança de dentro do tempo
a crescente medida dos gumes cintilantes
e o peso
das granadas soltas dos longos dedos tépidos
e desdobradas ao limite do inferno
Nós somos o que esperamos
todos ainda iguais aos mortos recentes
ultrapassar os trilhos calcinados
em filas densas ombro a ombro de mãos nuas
através do puro silêncio dos horizontes magoados
(sonhando trigo verde que toque a nossa face)
em busca da palavra
que purifique o sal dos nossos lábios
Cabo Delgado – Pemba – 1970
In “Revista Colóquio/Letras” – Poemas
N.º 36 de Março.1977
Fundação Calouste Gulbenkian
Glória de Sant'Anna
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