CÁ TE ESPERO...

Recordando... Gomes Leal

A UMA ANDORINHA


 


Nas brisas da tardinha


Pára teu vôo um pouco;


Ouve um poeta, um louco,


– Escuta-me andorinha!


 


Um pouco deixa os ninhos;


Attende as vãs loucuras,


–Tambem nas sepulturas


Vôam os passarinhos!


 


Nem sempre o azul ethereo


Quaes flexas vão cortando,


– Também riem, voando,


No chão do cemiterio!


 


Lavam os pés rosados


Nas urnas funeraes;


–Tu, mesmo, nos telhados


Moras das cathedraes!


 


Não fujas d'um poeta,


Que ha nuvens mais sombrias!


– Tu  já moraste uns dias


No nicho d'um propheta!


 


Por tanto, tu que adoras


A primavera e o Sul,


Dize-me, – no alto azul,


Quem faz sempre as Auroras!


 


Quem dá tintas vermelhas


Ao Sol poente que arde?


– Quem  coze as nuvens velhas,


E accende o astro da tarde?


 


Os campos dão renovos


Tambem, n'outras espheras?


– Quem faz as primaveras?


– Quem  faz os astros novos?


 


Quem faz a ave-flor?


Quem tinge o temporal?


– Quem faz a pomba, côr


Do lyrio virginal?


 


No Sol ha violetas,


E rios, campos, vinhas?


– Dize, se nos planetas?...


Tambem ha andorinhas...


 


E tu que mais almejas?


Tens sol, astros e ninhos--


Tens tudo o que desejas...


– Luz, grãos, pelos caminhos!


 


Ó triste ambicionar!


Ó santo e vão delirio!


– Talvez, ó filha do Ar


Quizesses ser um lyrio!


 


 


In “Claridades do Sul”


Braz Pinheiro – Editor


Lisboa – 1875


 


Gomes Leal


1848 – 1921


 


 


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