CÁ TE ESPERO...

Recordando... Graça Pires

A NOITE


 


À altura de todas as estrelas


coloco as mãos para tocar o vento.


A lua é um fascínio que deixa atónito


o meu corpo, e lhe dá um cheiro


de fêmea fecundada ; um fogo posto


a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.


Passeio-me, longamente,


pelo lado mais insensato das palavras


e digo o nome do último pássaro nocturno,


como se nele repetisse um primeiro adeus,


tão súplice, tão magoado.


Um tango exausto sobe-me pelas pernas.


Há, na minha boca, uma rua silenciosa,


por onde se chega à fragilidade dos lábios.


 


In “Ortografia do olhar”


Editora Éter


 


Graça Pires


(N. 1947)

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