APETECIA-LHE CHORAR
Apetecia-lhe chorar.
Gritar palavras sem nexo
até enrouquecer.
À distância da raiva,
era visível ainda, a porta
que ele usara para ir embora.
Assim. Como quem levanta a bandeira
do luto na fronteira do olhar.
Era, agora, interminável o vazio a resvalar
pelos tabiques, pelos móveis, pelo corpo.
Tinha insónias.
E, na língua, cicatrizes profundas
de tanto soletrar o nome dele.
O som da sua voz como um chicote.
In “A solidão é como o vento”
Poética Edições
Graça Pires
(N.1946)