CÁ TE ESPERO...

Recordando... Guerra Junqueiro

A LÁGRIMA


 


Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,  
Seca, deserta e nua, à beira duma estrada.  


 


Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,  
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.  


 


Sobre uma folha hostil duma figueira brava,  
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava, 


 


A aurora desprendeu, compassiva e divina, 
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina. 


 


Lágrima tão ideal, tão límpida que, ao vê-la,  
De perto era um diamante e de longe uma estrela.  


 


Passa um rei com o seu cortejo de espavento,  
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.  


 


- «No seu diadema, disse o rei, quedando a olhar, 
Há safiras sem conta e brilhantes sem par. 


 


«Há rubis orientais, sangrentos e doirados,  
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.  


 


«Há pérolas que são gotas de mágoa imensa,  
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.  


 


«Pois, brilhantes, rubis e pérolas de Ofir 
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir 


 


«Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,  
Vendo o Globo a meus pés do alto do teu diadema!» 


 


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa. 


 


Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,  
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.  


 


E o cavaleiro diz à lágrima irisada:  
«Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!  


 


«Far-te-ei relampejar, de vitória em vitória,  
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!  


 


«E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,  
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.  


 


«E assim alumiarás com teu vivo esplendor 
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!» 


 


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,   
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.  


 


Montado numa mula escura, de caminho,  
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.  


 


Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:  
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d’oiro.  


 


E o velhinho andrajoso e magro como um junco,  
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,  


 


Vendo a estrela, exclamou: «Oh Deus, que maravilha!  
Como ela resplandece e tremeluz e brilha!  


 


«Com meu oiro em montão podiam-se comprar 
Os impérios dos reis e os navios do mar.  


 


E por esse diamante esplêndido trocara 
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!»  


 


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.  


 


Debaixo da figueira então um cardo agreste, 
Já ressequido, disse à lágrima celeste: 


 


«A terra onde o lilás e a balsamina medra 
Para mim teve sempre um coração de pedra.  


 


«Se, a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,  
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.  


 


«Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,  
Ouvi trinar, gorjear a música dos ninhos.  


 


«Nunca junto de mim ranchos de namoradas 
Debandaram, cantando, em noites estreladas... 


 


«Voa a ave no azul e passa longe o amor,  
Porque ai, nunca dei sombra e nunca tive flor!... 


 


Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d’água,  
Cai na desolação desta infinita mágoa!»  


 


E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Tremeu, tremeu, tremeu... e caiu silenciosa!... 


 


E algum tempo depois o triste cardo exangue,  
Reverdecendo, dava uma flor cor de sangue, 


 


Dum roxo macerado e dorido e desfeito, 
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito... 


 


E ao cálix virginal da pobre flor vermelha 
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...


           


[25 de Março de 1888]  


                                                                                       


In "Poesias Dispersas"


Edições Vercial (2013)


 


Guerra Junqueiro


(1850-1923)

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