CÁ TE ESPERO...

Recordando... Hélia Correia

PARA QUÊ, PERGUNTOU ELE


 


Para quê, perguntou ele, para que servem


Os poetas em tempo de indigência?


Dois séculos corridos sobre a hora


Em que foi escrita esta meia linha,


Não a hora do anjo, não: a hora


Em que o luar, no monte emudecido,


Fulgurou tão desesperadamente


Que uma antiga substância, essa beleza


Que podia tocar-se num recesso


Da poeirenta estrada, no terror


Das cadelas nocturnas, na contínua


Perturbação, morada da alegria;


 


In “A Terceira Miséria”


Relógio d’Água - 2012


 


Hélia Correia


(N. 1949)

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