CÁ TE ESPERO...

Recordando... Herberto Hélder

FONTE II


 


No sorriso louco das mães batem as leves


gotas de chuva. Nas amadas


caras loucas batem e batem


os dedos amarelos das candeias.


Que balouçam. Que são puras.


Gotas e candeias puras. E as mães


aproximam-se soprando os dedos frios.


Seu corpo move-se


pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões


e órgãos mergulhados,


e as calmas mães intrínsecas sentam-se


nas cabeças filiais.


Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,


vendo tudo,


e queimando as imagens, alimentando as imagens,


enquanto o amor é cada vez mais forte.


E bate-lhes nas caras, o amor leve.


O amor feroz.


E as mães são cada vez mais belas.


Pensam os filhos que elas levitam.


Flores violentas batem nas suas pálpebras.


Elas respiram ao alto e em baixo. São


silenciosas.


E a sua cara está no meio das gotas particulares


da chuva,


em volta das candeias. No contínuo


escorrer dos filhos.


As mães são as mais altas coisas


que os filhos criam, porque se colocam


na combustão dos filhos, porque


os filhos estão como invasores dentes-de-leão


no terreno das mães.


E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,


e atiram-se, através deles, como jactos


para fora da terra.


E os filhos mergulham em escafandros no interior


de muitas águas,


e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos


e na agudeza de toda a sua vida.


E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,


e através dele a mãe mexe aqui e ali,


nas chávenas e nos garfos.


E através da mãe o filho pensa


que nenhuma morte é possível e as águas


estão ligadas entre si


por meio da mão dele que toca a cara louca


da mãe que toca a mão pressentida do filho.


E por dentro do amor, até somente ser possível


amar tudo,


e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


 


 


“A Colher na Boca” – 1961


Editora Ática


 


In “Ler Por Gosto”


Areal Editores


 


Herberto Hélder


N. 1930

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