CÁ TE ESPERO...

Recordando... Herberto Hélder

A CARTA DA PAIXÃO


 


Esta mão que escreve a ardente melancolia


da idade


é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,


que à imagem do mundo aberta de têmpora


a têmpora


ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra


a sua queimadura desde os seus recessos negros


onde se formam


as estações até ao cimo,


nas sedas que se escoam com a largura


fluvial


da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas


e o silêncio todo branco.


Os dedos.


A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua


alumia-se: O mel escurece dentro da veia


jugular talhando


a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se


a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas


obscuras, essa lua


tece as ramas de um sangue mais salgado


e profundo. E o marfim amadurece na terra


como uma constelação. O dia leva-o, a noite


traz para junto da cabeça: essa raiz de osso


vivo. A idade que escrevo


escreve-se


num braço fincado em ti, uma veia


dentro


da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta


da figura cavada


no espelho. Ou ainda a fenda


na fronte por onde começa a estrela animal.


Queima-te a espaçosa


desarrumação das imagens. E trabalha em ti


o suspiro do sangue curvo, um alimento


violento cheio


da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força


desde a raiz


dos braços a força


manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda


fechada, a límpida


ferida que me atravessa desde essa tua leveza


sombria como uma dança até


ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma


estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum


astro


é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros


do teu vestido.


As palavras que escrevo correndo


entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,


arterial.


E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.


A paixão é voraz, o silêncio


alimenta-se


fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te


toda


no cometa que te envolve as ancas como um beijo.


Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem


nos quartos.


É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a


entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel


relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta


pelo meio


o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras


um pouco loucas


engolfadas, entre as mãos sumptuosas.


A doçura mata.


A luz salta às golfadas.


A terra é alta.


Tu és o nó de sangue que me sufoca.


Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões


da madeira fria. És uma faca cravada na minha


vida secreta. E como estrelas


duplas


consanguíneas, luzimos de um para o outro


nas trevas.


 


In “Photomaton & Vox”


Assírio & Alvim - 1995


 


Herberto Hélder


(1930-2015)

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