CÁ TE ESPERO...

Recordando... Herberto Hélder

O POEMA


 


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


 


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os braços de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.


Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.


E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


 


E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo, o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.


- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


 


(A Colher na Boca – 1961)


 


In “Ler Por Gosto”


Areal Editores


 


Herberto Hélder


(1930-2015)

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