CÁ TE ESPERO...

Recordando... Herberto Hélder

HÁ CIDADES COR DE PÉROLA


 


Há cidades cor de pérola onde as mulheres


existem velozmente. Onde


às vezes param, e são morosas


por dentro. Há cidades absolutas,


trabalhadas interiormente pelo pensamento


das mulheres.


Lugares límpidos e depois nocturnos,


vistos ao alto como um fogo antigo,


ou como um fogo juvenil.


Vistos fixamente abaixados nas águas


celestes.


Há lugares de um esplendor virgem,


com mulheres puras cujas mãos


estremecem. Mulheres que imaginam


num supremo silêncio, elevando-se


sobre as pancadas da minha arte interior.


 


Há cidades esquecidas pelas semanas fora.


Emoções onde vivo sem orelhas


nem dedos. Onde consumo


uma amizade bárbara. Um amor


levitante. Zona


que se refere aos meus dons desconhecidos.


Há fervorosas e leves cidades sob os arcos


pensadores. Para que algumas mulheres


sejam cândidas. Para que alguém


bata em mim no alto da noite e me diga


o terror de semanas desaparecidas.


Eu durmo no ar dessas cidades femininas


cujos espinhos e sangues me inspiram


o fundo da vida.


Nelas queimo o mês que me pertence.


A minha loucura, escada


sobre escada.


 


Mulheres que eu amo com um desespero


fulminante, a quem beijo os pés


supostos entre pensamento e movimento.


Cujo nome belo e sufocante digo com terror,


com alegria. Em que toco levemente


a boca brutal.


Há mulheres que colocam cidades doces


e formidáveis no espaço, dentro


de ténues pérolas.


Que racham a luz de alto a baixo


e criam uma insondável ilusão.


Dentro de minha idade, desde


a treva, de crime em crime - espero


a felicidade de loucas delicadas


mulheres.


Uma cidade voltada para dentro


do génio, aberta como uma boca


em cima do som.


Com estrelas secas.


Parada. 


 


Subo as mulheres aos degraus.


Seus pedregulhos perante Deus.


É a vida futura tocando o sangue


de um amargo delírio.


Olho de cima a beleza genial


de sua cabeça


ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se


no meu pensamento quente.


 


[Lugar]


 


In “Poesia Toda”


Assírio & Alvim


 


Herberto Hélder


(1930-2015)

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