CÁ TE ESPERO...

Recordando... Irene Lisboa

MONOTONIA


 


Começar, recomeçar, interminamente repetir um


monótono romance, o romance da minha vida.


Com palavras iguais, inalteráveis, semelhantes,


insistir sobre o cansaço e a pobreza disto de viver...


Andar como os dementes pelos cantos a repisar


o que já ninguém quer ouvir.


Levar o meu desprecioso tempo à deriva.


Queixar-me, castigar e lamentar sem qualquer


esperança, por desfastio.


Pôr a nu uma miséria comum e conhecida, chã-


mente, serenamente, indiferente à beleza dos temas


e das conclusões.


Monotonamente, monotonamente.


 


Monotonia. Arte, vida...


Não serei ainda eu que te erigirei o merecido altar.


Que te manejarei hábil e serena.


 


Monotonia! Gume frio, acerado, tenaz, eloquente.


Sino de poucos tons, impressionante.


Mas se te descobri não te vou renegar.


Tu ensinas-me, tu insinuas-me a arte da verdade,


a pobreza e a constância.


Monotonia, torna-me desinteressada.


 


In “Um dia e outro dia… Outono havias de vir”


Editorial Presença


 


Irene Lisboa


(1892-1958)

0