CÁ TE ESPERO...

Recordando... Isabel Gouveia

CULPABILIDADE


 


O que é o perdão?


 


Vivi na esperança


de o ter entre os dedos.


Quem diz que o alcança


só vive de enredos...


 


Fiz mal? Mas a quem?


Que venham contar-me


as mágoas geradas


por meu vil desdém


e as feridas mostrar-me


na carne rasgadas.


 


Fiz mal? Mas a quem?


Fui pedra lançada


no vosso caminho?


Barrei-vos a estrada


com traves de pinho?


 


Só sei que


 


há vozes gritando


a culpa que sinto


pesar-me na alma,


há ecos cavando


a dor que pressinto


em noites de calma...


 


Só sei que


suspensos enredos


da minha agonia,


urdida ao serão


em grande segredo,


tornaram vazia


a minha intuição.


 


Fiz mal? Sim ou não?


Onde e quando?


Dizei-mo, dizei-mo!


 


Eu sou como a rocha


virada prò norte,


que acolhe a rajada


em concha bem forte


e a atira prò nada...


 


Fiz mal? Sim ou não?


Até os duendes,


escondidos e aduncos,


me negam razão.


 


O que é que vós tendes?


Tremeis como os juncos


nas bordas do rio.


Escondeis-vos de mim,


do meu poderio?


 


Do meu poderio!


Ah! Ah! Ah!


Tesouros saídos


de cofre guardado


em cave nojenta,


demónios roídos


de querer aturado


em bolsa sangrenta?


 


Fiz mal? Mas a quem?


Àqueles que ainda


não viram a luz


das coisas imundas?


De ideias fecundas


fiz braços em cruz?


 


A treva gerada


em dúvida vã


que cobre a minha alma


andou apressada;


a todos levou


a ânsia e a calma


em Deus embarcou?


 


Fiz mal? Como e onde?


E quando? E quando?


 


In "Os Sete Dias Passados"


Coimbra Editora – 1965


 


Isabel Gouveia **


N. 1930


 


 ** Nome literário de Isabel Pereira Mendes

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