CÁ TE ESPERO...

Recordando... Jaime Cortesão

À MINHA MÃE E À MINHA TERRA


 


A Ti, minha Mãe que tens o rosto


Dorido e iluminado duma santa,


Todo embebido em lágrimas de Amor,


É que a minha Alma, de joelhos, canta!


A Ti, e à minha Terra, as duas Mães,


 


Que me criaram juntas num abraço,


Pois ambas me trouxeram no seu ventre,


Ambas me adormeceram no regaço.


 


E tu, vento de orgulho, que em mim passas


Rugindo a toda hora,


Une-te ao pó:


E agora


Que de toda a minha Alma fique só


A trémula inocência dum menino


Para que eu reze uma oração de Graças!


Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem


Tão doce, religiosa e comovida,


Com uma parte viva neste mundo


E outra maior que é para além da Vida!


Já, por amor de mim, desses teus olhos,


Postos num rosto triste e macerado,


Como uma fonte prestes a nascer,


Muita lágrima em fio tens chorado


E muitas inda estão para correr.


 


Também a Terra sofre das raízes,


Que a penetram na ânsia de sugar;


Das Águas que a retalham pra correr,


Das humildes sementes a acordar;


Sofrem os Rios concebendo a Névoa


As Árvores no esforço de se erguer,


E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre


Quando lhes bate o lácteo do Vento


Ou se o Sol as devora, calcinante:


E é todo esse profundo Sofrimento


Para que eu num delírio ria e cante!


 


O vento, em fúria, passa sobre a Terra:


Talvez tu chores minha Mãe agora,


E quando eu canto, para ser Poeta,


Tu choras minha Mãe e a Terra chora.


 


A graça do teu rosto é já do Céu


Participa de Deus, de Eternidade,


E não se vê melhor estando ao perto:


Mas no vidente enlevo da Saudade,


Olhos fechados, coração aberto...


 


Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe!


E a minha Terra...: é só olhá-la bem,


Longe até às encostas,


Vêem-se choupos sempre até além...:


É a Paisagem toda de mãos postas!


 


Só tu podias ser a minha Mãe,


Só tu e mais ninguém


Trazer-me ao peito


É dar-me um leite em lágrimas banhado;


E que a estes meus olhos fosse dado


Só há no mundo este lugar eleito.


 


Graças, ó minha Mãe!, te venho dar


E a ti, boa Paisagem, também dou


Por meu divino gosto de cantar,


Pela parte mais santa do que sou!


 


É por amor das lágrimas ardentes,


Que te cavaram sulcos pelo rosto,


É por amor do céu e do Sol-posto,


Do Mar... de ti, Paisagem, que me abraças,


Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo


E que vos dou esta oração de graças.


 


E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem,


Ensinai-me a criar como as mulheres


E como a Terra generosa e ruda:


Que sofras, ó minha Alma, as dores do Parto,


Que dês o sangue aos versos que fizeres


Que o sol te queime e o Vento te sacuda!


 


Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa,


E vós, sagradas Águas e ramagens,


Bendita sejas tu entre as Mulheres,


Bendita sejas tu entre as Paisagens!


 


In "Glória Humilde”


Renascença Portuguesa - 1914


 


Jaime Cortesão


(1884-1960)

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