CÁ TE ESPERO...

Recordando... Jaime Cortesão... Poeta do Séc. XX

ELOGIO ÀS LÁGRIMAS


 


I


Lágrima é Alma que aflora


E á beira do Céu medita,


Mas que em breve se evapora


Para ser Vida infinita!


 


II


Quanto uma lágrima exprime


– Encanto, Dôr, Alegria –


É o acordar do sublime,


Que dentro d'Alma dormia.


 


III


Os olhos são lábios d'Alma,


Dôr é sêde que devora,


Sêde de água a água acalma;


E por isso a gente chora.


 


Fonte de pranto desfeito


– Água divina a correr –


Vem das entranhas do peito


À flôr dos olhos nascer.


 


Rega a face, corre em fio,


E o seio d'Alma, nascente,


É, depois do ardôr do Estio,


Primavera novamente.


 


IV


Quanto mais Amor me abrazas,


Mais a Alma vai subindo,


Chega aos olhos, solta as asas…:


São as lágrimas caindo.


 


V


Quando em meus braços te escondes


E perguntas se te adoro,


Calo-me. – Então não respondes…? –


E eu ólho p'ra ti e… choro.


 


VI


Almas – raízes sepultas…


Lágrimas – flores despontando…;


Quantas belezas ocultas


Só se conhecem chorando.


 


VII


Olhos que choram de mágoa,


Olham a Deus bem de fito:


Numa simples gôta d'água


Vem reflectir-se o Infinito.


 


VIII


Chorar é partir, de mágoa,


O coração aos pedaços,


Transformá-lo em beijos d'água


E a névoa d'água em abraços.


 


IX


«Já que a Sorte nos aparta


Venho dar-te o coração…»


Chorando inundei a carta…


Vê se éra verdade, ou não…


 


X


São as lágrimas salgadas…


Pudéra que assim não fosse:


Não que depois de choradas


Sente-se a Vida mais dôce.


 


XI


Quando choro o chôro rola


Dos meus olhos baga a baga,


Porque é que alguem me consola,


De quem a mão que me afaga…?!


 


XII


Chorar por mágoas d'Amor


É a divina surpresa


De ter esquecido a Dôr,


A admirar-lhe a grandeza.


 


XIII


Oh! Alma, oceano profundo,


Cheio de tantos escolhos,


Mas desce-te a Dôr ao fundo,


Traz as pérolas aos olhos.


 


XIV


Chorar é rezar aos céus,


Fazer acto de Humildade:


Quem chora acredita em Deus,


Confessa Amor e Bondade!


 


 


S. João do Campo


 


In Revista "A Águia"


N.º 2 – 1.ª Série – Ano I – 15 de Dezembro de 1910


 


Jaime Cortesão 


1884 – 1960


 


 


 


MANTÉM A GRAFIA ORIGINAL


 

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