CÁ TE ESPERO...

Recordando... João Lúcio

TARDE DE LEITE E ROSAS


 


Tarde de leite e rosas. Cada aresta,


Tinha um rubi tremente:


Fomos ouvir o canto da floresta,


O seu canto de amor, ao sol poente.


 


Tu querias sorver os poderosos


Lamentos de saudade e comoção


Que, as raízes, dos fundos tenebrosos,


Mandavam, pelo ramo, pra o clarão.


 


Opalescera já, o ar. O vento,


Correndo atrás da sombra, murmurou...


Sentiu-se um fechar de asas. Num momento,


A floresta, cantou.


 


Em cada ramo, um violino havia:


Cada folha vibrava, ágil, sonora,


Par'cendo que escondia uma harmonia,


Nas sombras das ramagens, a Aurora.


 


Como a floresta, meu amor, eu tento,


Atirar o meu canto para a altura:


Para a fazer cantar, toca-lhe o vento,


Pra me fazer cantar, no pensamento,


Passa o sopro da tua formosura.


 


In “Na Asa do Sonho”


 


João Lúcio


(1880-1918)

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