CÁ TE ESPERO...

Recordando... João Penha

O ESPELHO TRAIDOR


 


Enganam muitas vezes os espelhos,


Fazem dum quadro alegre um quadro triste.


Mas, direi da justiça que me assiste,


Posta a mão sobre a cruz dos Evangelhos.


 


Nesses teus olhos, de chorar vermelhos,


Perpassa ira, e como lança em riste,


Me fere os seios d’alma, por que viste


A tua aia assentada em meus joelhos!


 


Para que dessa dor não fique rastro


(Nem havia razão de tanto alarme)


Escuta o que ela disse ao teu poetastro,


 


Escuta-o e o riso o teu furor desarme:


“Quero, de perto, contemplar um astro…”


E pôs-se, como a viste, a contemplar-me.


 


 


In “Ecos do Passado” – 1914


Companhia Portuguesa Editora – Porto


 


João Penha


1838 – 1919


 

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