CÁ TE ESPERO...

Recordando... João Rasteiro

A DANÇA DAS MÃES


 


Na beleza incurável das feridas


alimentam-se mães sem trégua.


Nos rios secos, batem e batem os corações


alimentados em sangue frio e espesso.


Que é lívido. Que procura as raízes.


O coração é um bicho estranho, que vai


caminhando gota a gota. E as feridas incautas


aproximam-se das mães, imprudentes ao peso


de cada sopro. O amor eternamente feroz.


E as feridas das mães, são cada vez mais belas.


O medo caminha violentamente mais perto,


no corpo, na cara, nas vértebras e no ventre


onde se abriga com seu volúvel volume,


o silencioso amor de mãe.


Sob a folhagem da água, mães cansadas


da aridez que as toca, incendeiam-se através


dos filhos. E os filhos, esse chumbo cravado


nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende,


alimenta as feridas pelos tendões.


As mães debicam sobre a areia a sua rota clara,


até ao fim do mundo. Como pela última vez.


Sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza


incurável das feridas, enquanto mães tacteiam


a pedra, até ser flor.


Por vezes sangram e cantam, secam os olhos,


arrancam os sexos e em permanente luta, corpo


a corpo, o amor estende-se, mas os gestos


são frios, neste caminhar obsceno


de pessoas sem frutos. Há-de caber numa gota,


todo o tempo, todo o amor, de uma vida sem história.


 


In “No Centro do Arco”


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João Rasteiro


(N. 1965)

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