CÁ TE ESPERO...

Recordando... João Rasteiro

O CANTO DA TERRA


 


Tu que renasces da boca da terra


magia nua da inocência aberta nos dedos


que prolonga a ferida que se faz carne


e onde a água cintila de ingénuos aromas


propagando embriões numa concha redonda


e onde os homens farejam a vida inteira


escutando o silêncio sibilante dos astros roxos


e onde o orvalho abre o sexo da noite


esquecendo a morte agasalhada em asas.


 


Tu a continua fonte entre as ervas rebeldes


gemendo como magnólias acesas pela madrugada


que já não se separa da incessante metamorfose


e onde a lisura delira na suave fluidez animal


o sangue cheio de fêmeas grandiosamente abertas


e onde com o fogo lânguido se envolve a terra


como os amantes de pálpebras ainda adolescentes


e onde o som deles sufoca a construção do corpo


cantando o linho agudo com um feixe de vida.


 


Mulheres correndo a terra com crinas brancas


fogos de antimónio que ultrapassam o sol


uma constelação antiga ardente como sexos


unindo a ferocidade das palavras ao inebriado da boca


que da semente da terra nascerá a fêmea azul


ela mesma um mapa fruto uma flor da terra.


 


In “A revisitação dos lúzios” (inédito)


 


João Rasteiro


(N.1965)

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