CÁ TE ESPERO...

Recordando... Joaquim Manuel Magalhães

AMARELO QUEBRADO


 


As casas ganham um ar mais mortal


na tristeza depois de não ter havido coito.


Vão depressa as nuvens, tão depressa, levam pombos


e telhados agudos com ardósia quebram


em radiações de treva na água aprisionada.


 


Já tínhamos falado de tudo na véspera,


do adiamento, da sufocação,


mas senti que não seria assim.


Com a garganta ao contrário da Holanda,


seca, incapaz de falar.


 


Vi os gráficos do sangue empresarial.


Na floração das vendas, o risco suspendia


câmbios de gasolina sobre mim.


Ao som do telefax, um visor de números


era agora o teu rosto.


 


Por cima do casaco hesitavam as mãos


de novo perdidas no medo de prender-se


ao metal tecido de milagre da saliva.


Eram mãos que não sabiam pousar.


 


A experiência agora é esta: chamar desamor


à emoção que não entende o que deseja,


confunde os sentimentos numa aridez tão pesada


que nem eu percebo como deixa voar um avião


por este sem fim de céu que traz o fim.


 


Mas foi horas antes que findou.


Ia a noite avançando, escurecia o hotel


e as mãos ficaram presas. Tanto tempo,


tanto tempo nenhum.


 


In “As Escadas Não Têm Degraus”


Edição de Livros Cotovia


 


Joaquim Manuel Magalhães


(N.1945)

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