PAI, A MINHA SOMBRA ÉS TU
a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma
e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida
o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face
pai, digo-te
a minha sombra és tu
In “A Palavra no Cimo das Águas”
Colecção Campo da Poesia
Campo das Letras – Lisboa – 2000
Jorge Reis-Sá
N. 1977