CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Abílio Gouveia

O VELHO MARINHEIRO


 


Quem é tu pobre velho, à beira mar,


Fitando há tanto tempo o horizonte?


Porque vejo teus olhos a chorar,


Tão enrugada, assim, a tua fronte?


 


Será que uma lembrança, uma saudade,


Se torna tão distante e sonhador?


Será que já não tens felicidade?


Responde, fala, diz-me, por favor.


 


E o pobre velho de expressão vincada,


Qual testemunho de uma vida dura,


Olhando-me disse: (com voz velada,


Lenta, pausada e cheia de amargura)


 


Eu sou aquele que sulcou esteiras,


rasgando selvas, arroteando mares;


Eu sou aquele que transpôs barreiras,


Que forjou raças e construiu lares.


 


Eu sou aquele que adubou, com sangue,


Lavras imensas, em milhares de terras;


Eu sou aquele que chorou exangue,


Seus filhos mortos noutras tantas guerras.


 


Mas hoje... nada sou. Só nostalgia!


Estátua viva de alucinações!


Sou Alcácer-Quibir em agonia,


Ouvindo ao longe, os versos de Camões!


 


Perguntaste quem sou? Sou o passado


De alguém que ditou leis, ao mundo inteiro;


Moribundo, cuspido, espezinhado,


O velho Portugal, o Marinheiro.


 


 


Guimarães, 1975


 


In “Poetas & Trovadores”


Ano XVlll – 3ª edição – n.º 1 – Abril  de 1998


 


José Abílio Gouveia


1916 – 1996  


 


 

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