CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Agostinho Baptista

O VERÃO


 


Estás no verão,


num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre


a duna.


Estás em mim,


nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome


pensas:


teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,


sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.


És o esplendor do dia,


os metais incandescentes de cada dia.


Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces


o ardor das maçãs,


as claras noções do pecado.


Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos


meus anos.


Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os


rituais que previ.


Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em


ti e inclinam-se.


Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.


Doce e cruel é setembro.


Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


 


(Paixão e Cinzas -1992)


 


In “Biografia”


Assírio & Alvim – 2000  


 


José Agostinho Baptista


N. 1948

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