CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Blanc de Portugal

SONETO MARTELADO


 


A tarde, e por de mais calma,


Afogou-me o que ficara da partida


Tudo que inventara, essa mentira querida


Que ficara fazendo as vezes da alma.


Passa e segue a triste gente calada


E o correio e a luz quebrada no muro


Trazem a tarde, recortando duro


O perfil triste e morno desta minha estrada.


E choca e vem de mim até ao céu polido


Liso e puro e sempre igual estendido


Sobre mim e a rua desolada,


Uma ilusão que nada tem de alada


E é feita de aço puro e diamantes:


Não querer tornar-me no que era dantes.


 


In “Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro”


Assírio & Alvim


 


José Blanc de Portugal


(1914-2000)

0