CÁ TE ESPERO...

Recordando... José de Almada Negreiros

LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA


 


Era uma vez


um português


de Portugal.


O nome Luís


há-de bastar


toda a nação


ouviu falar.


Estala a guerra


E Portugal


chama Luís


para embarcar.


Na guerra andou


a guerrear


e perde um olho


por Portugal.


Livre da morte


pôs-se a contar


o que sabia


de Portugal.


Dias e dias


grande pensar


juntou Luís


a recordar.


Ficou um livro


ao terminar


muito importante


para estudar.


Ia num barco


ia no mar


e a tormenta


vá d’estalar.


Mais do que a vida


há-de guardar


o barco a pique


Luís a nadar.


Fora da água


Um braço no ar


na mão o livro


há-de salvar.


Nada que nada


sempre a nadar


livro perdido


no alto mar.


– Mar ignorante


que queres roubar?


a minha vida


ou este cantar?


A vida é minha


ta posso dar


mas este livro


há-de ficar.


Estas palavras


hão-de durar


por minha vida


quero jurar.


Tira-me as forças


podes matar


a minha alma


sabe voar.


Sou português


de Portugal


depois de morto


não vou mudar.


Sou português


de Portugal


acaba a vida


e sigo igual.


Meu corpo é Terra


de Portugal


e morto é ilha


no alto mar.


Há portugueses


a navegar


por sobre as ondas


me hão-de achar.


A vida morta


aqui a boiar


mas não o livro


se há-de molhar.


Estas palavras


vão alegrar


a minha gente


de um só pensar.


À nossa terra


irão parar


lá toda a gente


há-de gostar.


Só uma coisa


vão olvidar:


o seu autor


aqui a nadar.


É fado nosso


é nacional


não há portugueses


há Portugal.


Saudades tenho


mil e sem par


saudade é vida


sem se lograr.


A minha vida


vai acabar


mas estes versos


hão-de gravar.


O livro é este


é este o cantar


assim se pensa


em Portugal.


Depois de pronto


faltava dar


a minha vida


para o salvar.


 


In “Obras Completas - Poesia”


Editora Estampa


 


José de Almada Negreiros


(1893-1970)

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