CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Duro

O MEU AMIGO


 


Elle era um doido bom, um doido visionário


Que andava quasi sempre d’olhos rasos d’agua,


E, ás vezes, costumava a soluçar, com magua,


A lenda original d’um Fado extraordinário...


 


Entrava na taberna assim que anoitecia,


Bebia só absintho e nunca se fartava,


D’ahi, quem sabe lá se no absintho achava


Um meio de esquecer a dôr que o opprimia...


 


Amava a côr do lucto e odiava a côr do ouro.


E é certo que deixou – estranho typo aquelle! –


Poemas de nevrose em que só punha Chôro...


 


E eu, que desejo ser o que ninguém deseja,


Julguei-me, por ventura, um doido como elle...


Que um doido já eu sou, embora não no seja!


 


(mantem a grafia original)


 


In “Fel (97/98) ”


Empreza Litteraria Lisbonense


Libânio & Cunha Editores - 1898


 


José Duro


(1875 - 1899)

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