CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Duro

DOENTE


 


Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!


Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...


E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,


Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...


 


Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,


Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,


E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.


E só estou contente ouvindo um alaúde.


 


Cada vez que me estudo encontro-me diferente,


Quando olham para mim é certo que estremeço;


E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,


O contrário talvez daquilo que pareço...


 


Espírito irrequieto, fantasia ardente,


Adoro como Poe as doidas criações,


E se não bebo absinto é porque estou doente,


Que eu tenho como ele horror às multidões.


 


E amando doudamente as formas incompletas


Que às vezes não consigo, enfim, realizar,


Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,


E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...


 


São filhos do meu tédio e duma dor qualquer


Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos


Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,


Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.


 


Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...


E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,


Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,


Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.


 


E é vão que medito e é em vão que sonho:


Meu coração morreu, minha alma é quase morta...


Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,


E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...


 


Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,


E, por maior desgraça e por maior tormento,


Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -


Uma alma de poeta e um pouco de talento!


 


A doença que me mata é moral e física!


De que me serve a mim agora ter esperanças,


Se eu não posso beijar as trémulas crianças,


Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?


 


E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,


Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...


Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!


Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...


 


Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste


Alheio à sedução dos ideais perversos...


O poeta nunca morre embora seja agreste


A sua aspiração e tristes os seus versos!


 


In “Fel”


Libânio & Cunha Editores - 1898


 


José Duro


(1875-1899)

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