CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Fanha

ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS


 


Duas linhas paralelas,


muito paralelamente,


iam passando entre estrelas


fazendo o que estava escrito:


caminhando eternamente


de infinito a infinito.


 


Seguiam-se passo a passo


exactas e sempre a par


pois só num ponto do espaço,


que ninguém sabe onde é,


se podiam encontrar,


falar e tomar café.


 


Mas farta de andar sozinha,


uma delas certo dia


voltou-se para a outra linha,


sorriu-lhe e disse-lhe assim:


«Deixa lá a geometria


e anda aqui para o pé de mim...»


 


Diz a outra: «Nem pensar!


Mas que falta de respeito!


Se quisermos lá chegar,


temos de ir devagarinho,


andando sempre a direito


cada qual no seu caminho!»


 


Não se dando por achada


fica na sua a primeira


e sorrindo amalandrada,


pela calada, sem um grito,


deita a mãozinha matreira,


puxa para si o infinito.


 


E com ele ali à frente,


as duas a murmurar


olharam-se docemente,


e sem fazerem perguntas,


puseram-se a namorar,


seguiram as duas juntas.


 


Assim, nestas poucas linhas


fica uma estória banal


com linhas e entrelinhas


e uma moral convergente:


o infinito afinal


fica aqui ao pé da gente.


 


 


In “Eu Sou Português Aqui”


Edições Ulmeiro


 


José Fanha


N. 1951

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