CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Jorge Letria

QUANDO EU FOR PEQUENO


 


Quando eu for pequeno, mãe,


quero ouvir de novo a tua voz


na campânula de som dos meus dias


inquietos, apressados, fustigados pelo medo.


Subirás comigo as ruas íngremes


com a certeza dócil de que só o empedrado


e o cansaço da subida


me entregarão ao sossego do sono.


 


Quando eu for pequeno, mãe,


os teus olhos voltarão a ver


nem que seja o fio do destino


desenhado por uma estrela cadente


no cetim azul das tardes


sobre a baía dos veleiros imaginados.


 


Quando eu for pequeno, mãe,


nenhum de nós falará da morte,


a não ser para confirmarmos


que ela só vem quando a chamamos


e que os animais fazem um círculo


para sabermos de antemão que vai chegar.


 


Quando eu for pequeno, mãe,


trarei as papoilas e os búzios


para a tua mesa de tricotar encontros,


e então ficaremos debaixo de um alpendre


a ouvir uma banda a tocar


enquanto o pai ao longe nos acena,


lenço branco na mão com as iniciais bordadas,


anunciando que vai voltar porque eu sou


pequeno


e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


 


In "O Livro Branco da Melancolia"


Quetzal Editores


 


José Jorge Letria


(N.1951)

0