O PEGO
Nadador que ao nadar, sem desistir, sentisse
Chupá-lo, como polvo informe, o pego imundo,
Ao mesmo tempo estou nadando à superfície
E mais me afundo... em quê? e desço para o fundo...
De costas, vejo o azul, agito os pés e as mãos,
Sinto nadar os mais, gozo o ar e as ondas, vou,
Multiplico, à flor de água, os movimentos vãos,
Mantenho-me… porém, que fundo ou que alto estou!
Porque o céu que é, lá'cima, essa tranqüila curva
De bom setim azul, que tão bem faz olhar,
Se me abre a mim de mais, se liquefaz, se turva,
Se encrespa, e me atrai como um outro e maior mar...
À flor da água em que nado, opresso e falso, agito
Os pés e as mãos dum corpo a que me alheio...,
[embora
Lute, abafando um fundo, interminável grito,
Por me agarrar a êle e a tudo o que é de fora...
O pego que me atrai sob a flor de água em que ando
Seduz-me, como essoutro, azul, que se abre em cima,
E, suspenso entre tais fôrças iguais, nadando,
Eu sinto que já só fingir nadar me anima.
Os meus irmãos que ao pé dum tal nadar tremendo
Nadam, mas naturais, como uma alga ou um peixe,
Fugiriam, sentindo os pegos perto – e vendo
Que é um cadáver, já, que entre êles inda mexe.
Mas não! não vêem nada! e falam-me, e eu res-
[pondo
Aos ecos duma voz que vem como chegada
De cá de onde inda estou, sem ser de cá, compondo
Um ar de também, ser dos que não vêem nada...
(mantém a grafia original)
In “Altura“
Cadernos de Poesia
N.º 2 de Maio de 1945
José Régio **
(1901-1969)
** Pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira