CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Simões Dias

TEU LENÇO


 


O lenço que tu me deste


Trago – o sempre no meu seio,


Com medo que desconfiem


Donde este lenço me veio.


 


As letras que lá bordaste


São feitas do teu cabelo;


Por mais que o veja e reveja,


Nunca me farto de vê-lo.


 


De noite dorme comigo,


De dia trago – o no seio,


Com medo que os outro saibam


Donde este lenço me veio.


 


Alvo, da cor da açucena,


Tem um ramo em cada canto;


Os ramos dizem saudade,


Por isso lhe quero tanto.


 


O lenço que tu me deste


Tem dois corações no meio;


Só tu no mundo é que sabes


Donde este lenço veio.


 


Todo ele é de cambraia,


O lenço que me ofereceste;


Parece que inda estou vendo


A agulha com que o bordaste.


 


Para o ver até me fecho


No meu quarto com receio,


Não venha alguém perguntar-me


Donde este lenço me veio.


 


A cismar neste bordado


Não sei até no que penso;


Os olhos trago – os já gastos


De tanto olhar para o lenço.


 


Com receio de perdê-lo


Guardo – o sempre no meu seio,


De modo que ninguém saiba


Donde este lenço me veio.


 


Nas letras entrelaçadas


Vem o meu nome e o teu;


Bendito seja o teu nome


Que se enlaçou com o meu!


 


Por isso o trago escondido,


Bem guardado no meu seio,


Com medo que me perguntem


Donde este lenço me veio.


 


Quanto mais me ponho a vê – lo,


Mais este amor se renova;


No dia do meu enterro


Quero levá-lo p'ra cova.


 


Vem pô-lo sobre o meu peito,


Que eu hei-de tê-lo no seio;


Mas nunca digas ao mundo


Donde este lenço me veio.


 


In "Peninsulares" - 1876


 


José Simões Dias


(1844 – 1899)

0