CÁ TE ESPERO...

Recordando... José Terra **

AS PALAVRAS FEREM-SE NO VENTO...


 


As palavras ferem-se no vento,


retraem-se no íntimo da concha.


 


As palavras em hélice padecem


a tortura do indeciso tempo.


 


Saltam da alma como peixes. Ficam


asfixiantes na aridez da terra.


 


As palavras batem contra o espelho


e evitam o rosto reflectido.


 


A etimologia emigra no silêncio.


As palavras resignam. E o reino


 


da esfinge, frio, imperturbável.


As palavras espantam-se no vento


 


do claro Sol, da limpidez da água.


Os archeiros d'El-Rei pisam a noite


 


e exigem-lhes à entrada o passaporte.


O frio gládio alveja o peito


 


e as puríssimas vestes poisam, lentas.


Revistam-lhes as tranças e o sorriso


 


e mesmo assim a sentinela embarga


o limiar da linha alfandegária.


 


As palavras vestem o cilício


da conturbada hora em que nasceram


 


palpitantes, vívidas, certeiras.


As palavras à esquina do silêncio


 


rastejam ao luar, sob a fronteira.


 


In “ÁRVORE”


Folhas de Poesia


1.º Fascículo - Inverno de 1951-52


Pág.130/131


 


José Terra **


(1928-2014)


 


** Pseudónimo José Fernandes da Silva

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