CÁ TE ESPERO...

Recordando... Júlio Dinis

A ESMOLA DO POBRE


 


Nos toscos degraus da porta


De igreja rústica e antiga,


Velha trémula mendiga


Implorava compaixão.


Quase um século contado


De atribulada existência,


Ei la, enferma e na indigência


Que á piedade estende a mão.


 


Duas crianças brincavam


Á distancia, na alameda;


Uma trajava de seda


Da outra humilde era o trajar.


Uma era rica, outra pobre,


Ambas loiras e formosas,


Nas faces a cor das rosas,


Nos olhos o azul do ar.


 


A rica, ao deixar os jogos,


Vencida pelo cansaço


Viu a mendiga, - e ao regaço


Uma esmola lhe lançou.


Ela recebe-a; e a criança,


Que a socorre compassiva,


Em prece fervente e viva,


Aos anjos encomendou.


 


De um ligeiro sentimento


De vaidade possuída,


Á criança mal vestida


Disse a do rico trajar:


«- O prazer de dar esmolas


«A ti e aos teus não é dado;


«Pobre como és, coitada,


«Aos pobres o que hás de dar?»


 


Então a criança pobre,


Sem mais sombras de desgosto,


Tendo o sorriso no rosto


Da igreja se aproximou,


E após, serena, em silencio,


Ao chegar junto da velha,


Descobrindo-se ajoelha,


E a magra mão lhe beijou.


 


E a mendiga, alvoroçada,


Ao colo os braços lhe lança,


E beija a pobre criança,


Chorando de comoção!


É assim que a caridade


Do pobre ao pobre consola;


Nem só da mão sai a esmola,


Sai também do coração.


 


In “Poesias” - 1873


 


Júlio Dinis **


(1839-1871)


 


** Pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho

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