CÁ TE ESPERO...

Recordando... Júlio Diniz

TRIGUEIRA


 


Trigueira! Que tem? Mais feia


Com essa cor te imaginas?


Feia! Tu, que assim fascinas


Com um só olhar dos teus!


Que ciúmes tens da alvura


D’esses semblantes de neve!


Ai, pobre cabeça leva!


Que te não castigue Deus.


 


Trigueira! Se tu soubesses


O que é ser assim trigueira!


D’essa ardilosa maneira


Por que tu o sabes ser;


Não virias lamentar-te,


Toda sentida e chorosa,


Tendo inveja à cor da rosa,


Sem motivos para a ter.


 


Trigueira! Porque és trigueira


É que eu assim te quis tanto,


Daí provem todo o encanto


Em que me traz este amor.


E suspiras e murmuras!


Que mais desejavas inda?


Pois serias tu mais linda,


Se tivesses outra cor?


 


Trigueira! Onde mais realça


O brilhar duns olhos pretos,


Sempre húmidos, sempre inquietos,


Do que numa cor assim?


Onde o correr duma lágrima


Mais encantos apresenta?


E um sorriso, um só, nos tenta,


Como me tentou a mim?


 


Trigueira! E choras por isso!


Choras, quando outras te invejam


Essa cor, e em vão forcejam


Por, como tu, fascinar?


Ó louca, nunca mais digas,


Nunca mais, que és desditosa,


Invejar a cor da rosa,


Em ti, é quase pecar.


 


Trigueira! Vamos, esconde-me


Esse choro de criança.


Ai, que falta de confiança!


Que graciosa timidez!


Enxuga os bonitos olhos,


Então, não chores, trigueira,


E nunca dessa maneira


Te lamentes outra vez.


 


 


In “As Cem Melhores Poesias


Líricas da Língua Portuguesa”


 


Júlio Diniz **


1839 – 1871


 


 


** Pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho


 

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