CÁ TE ESPERO...

Recordando... Liberto Cruz

POEMA CONTRA A CIDADE


 


Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos


E a incauta presença nos suga


O esforçado mel de todos os dias.


 


São inúteis todos os rios de resina,


Todas as amoras maduras


Que pisámos, bravas,


No intervalo das estações.


 


As primeiras chuvas são apenas


Primeiras chuvas


E as crianças brincando são apenas


Crianças brincando.


 


Punhais de duas lâminas nos correm nas veias


E cavalos selvagens penetram


Em nosso corpo, até à raiz dos ossos.


 


Falsos, caminhamos, esmagados os olhos


Pela indiferença das árvores,


Pelo silêncio dos cisnes.


 


Aqui na cidade, talvez tudo seja o contrário,


Do que digo, do que escrevo,


Mas a amada perde-se em florestas de ar puro


E meus dedos não acabam gestos,


Não conseguem a calma da sua presença.


 


 


In “Poesia Reunida (1956 – 2011)”


Editora Palimage


 


Liberto Cruz


N. 1935

0